Reconhecimento oficial do Cordel
19 de setembro de 2018
Nesta quarta-feira (19), a literatura de cordel brasileira passou por um momento histórico. O Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovou o registro da Literatura de Cordel como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. A conquista coroou mais de uma década de mobilização dos cordelistas e da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC) em prol desse reconhecimento. Até então marginalizado como uma manifestação “menor”, o cordel agora recebe o devido status de bem cultural digno de preservação e fomento.
Originária do Nordeste brasileiro, essa forma de poesia narrativa se espalhou do campo para as cidades e hoje é conhecida em todo o país. Segundo o Iphan, o título de patrimônio imaterial reforça a importância de uma das mais genuínas manifestações da cultura popular do Brasil. “Os cordelistas contam em versos muita da nossa identidade brasileira e agora ganharam mais um motivo para divulgar e perpetuar esse estilo. O cordel agora é Patrimônio Cultural Imaterial”, destacou o dossiê apresentado ao Conselho.
O registro implica, também, compromisso público com ações de salvaguarda, ou seja, iniciativas para apoiar os poetas, editores, xilogravadores e demais atores que mantêm viva a tradição do cordel. O cordel agora é “um bem nacional” que deve ser protegido e incentivado pelo Estado, mas também pelos próprios poetas, como forma de preservar essa riqueza cultural.
Comemoração e depoimentos dos cordelistas
A notícia foi recebida com festa pela comunidade de cordelistas em todo o país. Gonçalo Ferreira da Silva, presidente da ABLC e poeta cordelista, comemorou a decisão: “É um movimento cultural essencialmente brasileiro e nordestino. Agora, a nível de cultura superior, é universal a ressonância da literatura de cordel e a grandeza como a de Homero, a Roma de Virgílio, a Espanha de Cervantes, a Portugal de Camões”, afirmou ao comparar a tradição cordelista aos grandes épicos mundiais. Gonçalo ressaltou ainda o trabalho da ABLC nos últimos 30 anos para manter o cordel vivo e livre de preconceitos que tentavam designá-lo como “arte menor”, um estigma que o título do Iphan ajuda a derrubar de vez.
Alguns dos cordelistas comemoram a decisão, mas ainda veem outras formas que o Estado poderia apoiar a literatura, como a criação de concursos que favoreçam a publicação de novas obras, patrocinando eventos de difusão dessa arte. Eles acreditam que essa é a melhor forma de fomentar a arte, criando condições para que ela cresça, mas sem interferir no processo criativo do autor, que, segundo eles, é o que acontece muitas vezes quando um título como esse é dado.
Cordel na educação e o legado de Marcondes CarvalhoO impacto do “Dia do Cordel” não se limita aos poetas e artistas, alcançando também a educação e a academia. Marcondes Fernando Pereira Carvalho, professor e pedagogo paraibano (UFCG, campus Cuité), é um dos entusiastas do uso do cordel como ferramenta pedagógica. Em sua especialização em Ensino-Aprendizagem, Marcondes dedicou a monografia justamente ao tema “O lúdico no processo de letramento: utilizando o gênero literário cordel”. Nesse trabalho, ele defende unir “a interdisciplinaridade, o lúdico, o processo de letramento e o cordel” como forma de engajar e alfabetizar crianças de maneira prazerosa. A experiência mostrou que os folhetos rimados, com sua musicalidade e narrativa acessível, podem desenvolver a leitura de forma divertida e contextualizada.
Marcondes também leva o cordel além da sala de aula, inserindo-o em projetos comunitários. Em Cuité (PB), ele ajudou a integrar cordelistas, violeiros e outros artistas populares em feiras de cultura e economia solidária, valorizando a arte do povo no cotidiano da cidade. Iniciativas como essa demonstram que o cordel tem um papel vivo na educação e na conscientização social, aproximando gerações e transmitindo valores de forma criativa.
Com o reconhecimento oficial, educadores como Marcondes esperam um novo impulso para incluir o cordel nas escolas, bibliotecas e projetos culturais. A legitimação pelo Iphan confere prestígio e visibilidade que podem contribuir para que materiais de cordel circulem mais amplamente entre estudantes, enriquecendo o ensino de literatura, história e folclore regional. Afinal, o cordel sempre foi uma forma de narrar o mundo do ponto de vista popular, seja com humor, crítica social ou exaltação das raízes do sertão, e agora esse saber popular ganha proteção institucional para florescer nas próximas gerações.
O título de Patrimônio Cultural Imaterial não apenas homenageia os mestres cordelistas do passado e do presente, mas também abre novos horizontes e caminhos para diversas áreas. Fortalecido por essa conquista, o cordel tende a receber mais apoio e investimentos, estimulando novos poetas e projetos e garantindo que a voz rimada do povo nordestino continue encantando o Brasil por muitos e muitos anos.